Veneza, da janela de Sartre

"A água está demasiado calma; não a ouvimos. Tomados por uma certa suspeita, eu me debruço: o céu caiu ali dentro. Ela mal ousa se mover e suas milhares de dobras embalam confusamente a enfadonha Relíquia que fulgura por intermitências. Ao longe, a leste, o canal se interrompe, é o começo da grande poça leitosa que se estende até a Chioggia: mas daquele lado, é a água que está de saída: meu olha desliza para uma vidraça, resvala e vai se perder, tendo em vista o Lido, em uma morna incandescência. Faz frio; um dia nulo anuncia seu palor; mais uma vez Veneza se toma por Amsterdã; aquelas pálidas formas acinzentadas ao longe são palácios. É assim, aqui: o ar, a água, o fogo e a pedra não param de se inverter, de trocar suas naturezas ou seus lugares naturais, de brincar de quatro cantos ou de pega-pega; jogos antigos e sem inocência; assistimos ao treino de um ilusionista. (...)" O sequestrado de Veneza. Jean-Paul Sartre.

E assim vai livro afora, nem de copiar dá vontade de parar... Trata-se de um ensaio sobre o pintor veneziano Tintoretto, não descrevendo sua obra, mas partindo da trajetória do pintor, retrata a tragédia da arte moderna.  Não escrevo mais para que vocês leiam e saboreiem estas linhas belíssimas.

E hoje Sartre faria 106 anos... Quis escrever-lhes algo novo sobre ele, mademoiselles e monsier: tarefa difícil esta. Lendo este trecho, vejo da minha janela apenas prédios de péssima arquitetura, mas há esta chuvinha charmosa e o início do inverno com suas promessas de cafés e chás e bate-papos. Daqui de minha escrivaninha sonho um dia olharmos por alguma janela em Veneza com os olhos de Sartre. Estes olhos que mudaram o mundo...

Bjxxx

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